Quando Ângela Cristina engravidou da Malena, Maria de Lourdes tinha quarto aninhos e não reagiu tão bem.
ㅤ– Eu vou ODIAR a Malena! ODIAR! – berrava pela casa, marchando.
ㅤOk, ok... Serei sincero: desde o anúncio do nascimento do Mário Márcio ela já não lidava bem com a ideia de dividir o teto com outra pessoa miúda. Mais que miúda, menor do que ela. Pessoa miúda que exigia mais atenção do que ela.
Malu nasceu ciumenta. Eu me lembro bem de seu olhar fulminante quando me flagrou encantado com um menininho no berço ao lado do dela, ainda na maternidade. Sim, ela é ciumenta desde o berço.
ㅤPara Malu, o mundo ideal seria o mundo em que ela fosse filha única pra sempre. Mas não teve jeito. Eu e Ângela Cristina não ligávamos muito a tevê e acabamos nos empolgando. Dois anos depois do nascimento da nossa primogênita, veio o Mário Márcio. Agora, era a vez de a Malena vir ao mundo. Aí ela achou demais.
ㅤ– Dois irmãos? DOIS? Pra que tanto irmão? – ela questionava, irritada e dramática. – Vocês podiam ter parado no Mamá! Um irmão só tava bom... E eu nem gosto dele tanto assim.
ㅤAh, a sinceridade infantil!
ㅤOs meses passavam, a barriga crescia.
ㅤ
– Eu vou matar a Malena quando ela nascer.
ㅤ– Como é que é?
ㅤ– É isso mesmo, pai.
ㅤ– Mas aí vai todo mundo ficar triste... Você quer ver o papai e a mamãe tristes? Até você vai ficar ficar triste... Muito triste... Ninguém mata uma irmãzinha. É errado, é um crime horroroso - disse.
ㅤ– Mas... Mas... Mas... vocês vão gostar mais dela do que de mim!
ㅤ– Claro que não, querida!!! A gente gosta de todo mundo do mesmo jeito!
ㅤ– Mentira!
ㅤ– Verdade! E olha só, você não pode virar uma criminosa e ir pra cadeia, porque o papai e a mamãe vão precisar da sua ajuda pra cuidar da sua irmã. – argumentou Ângela Cristina.
ㅤ– Hã?
ㅤ– Claro! O Mário Márcio ainda é pequeno, só você vai poder ajudar a gente. Tá vendo como você é importante na nossa vida e na vida da sua irmãzinha!?
ㅤE tome psicologia infantil!
ㅤTadinha da bolota... Não deve ser fácil ser criança...
ㅤ– Então tá, tá bom, tá booom! Não mato ela, então. Que saco!
ㅤArmou uma tromba.
ㅤ– Que bom. Papai fica feliz.
ㅤ– Mas querem saber? Vou bem fugir de casa quando ela nascer.
ㅤ– Ah, é? E o que você vai levar? – perguntou Ângela Cristina.
ㅤ– Um pacote de biscoito, minha boneca Amanda, minhas luvas de boxe, um travesseiro, um cobertor, o Mário Márcio e uma tesourinha.
ㅤ– O quê? Você vai levar o Mário Márcio? Mas você disse que nem gosta muito dele... – retruquei.
ㅤ– Mas não quero ficar longe dele, ué.
ㅤBoneca! Era apaixonante a minha Malu com 5 aninhos.
ㅤ– E a tesourinha? Pra que a tesourinha?
ㅤ– Mãe, você não vive dizendo que criança não pode ter unha grande? Então!
ㅤBonitinha... Peguei a menina e botei no meu colo. Enquanto eu a enchia de beijos, a mãe puxava mais assunto.
ㅤ– E quem vai cortar sua unha?
ㅤ– Meus amigos da rua, ué.
ㅤAh, a lógica infantil...
ㅤ– Sei... E não vai levar um livrinho pra te fazer companhia? – Ângela Cristina fez graça.
ㅤ– Ah, tá. Pode ser...
ㅤ– Vem cá, onde é que você e seu irmão vão dormir? – quis saber.
ㅤ– No ponto de ônibus, porque tem banco e é coberto. Assim a gente não dorme no chão nem pega chuva.
ㅤTinha pensado em tudo a minha garota!
ㅤ– Garota esperta! – debochei.
ㅤ– Armando!! – brigou Ângela Cristina.
ㅤMalena nasceu quando Malu tinha acabado de fazer cinco aninhos. Falamos que era nosso presente de aniversário pra ela, mas ela preferiu uma boneca. Os meses passaram e os três se deram bem. Quase sempre bem.
ㅤ– Pai, eu arranquei um pedaço da Malena. – Maria de Lourdes disse num telefonema.
ㅤ– Você o quê? Filha, cadê a sua mãe? – reagi, do outro lado da linha.
ㅤ– Tá na cozinha... Mas ela vai brigar comigo se souber que eu...
ㅤ– Maria de Lourdes, vai agora chamar sua mãe! O que foi que aconteceu? Como está a sua irmã?
ㅤ– Tá bem. É que eu tava fazendo carinho nela, mas minha unha arrancou uns pedaços da pele e...
ㅤTer filhos pequenos é assim. Uma surpresa diária. O problema é que devíamos nos acostumar com o fato de que crianças fazem e dizem bobagens o tempo inteiro. Mas vai pensar em bobagem quando recebe um telefonema em que sua filha grita, desesperada:
ㅤ– Pai, eu matei a minha irmã! Deixei ela cair, ela bateu a cabeça, quebrou a cabeça e morreu! Ela morreu! Ela morreu!
ㅤPânico na redação. Fiquei branco.
ㅤ– Ela caiu? C-Como ela caiu?
ㅤ– Eu peguei ela no colo e ela caiu, ué. Morreu. Morreu.
ㅤ– Não fala assim, Malu! Cadê a sua mãe?
ㅤ– Chegou aqui agora... Xiii... Vai brigar...
ㅤ– Deixa eu falar com a sua mã...
ㅤ– Oi, Armando! Fica tranquilo. A Malena não morreu. Filha! Já não disse pra não ficar pegando sua irmã no colo? Ela é pequenininha, mas é pesada!
ㅤ– O que aconteceu?
ㅤ– Armando, ela caiu e bateu, de leve, com a cabecinha. Vai nascer um galo, só isso.
ㅤE assim, entre sustos e alegrias, nossos filhos foram crescendo em harmonia. Mas Maria de Lourdes matou Malena pelo menos umas sete vezes e o Mário Márcio pelo menos umas dez. Depois de tantos telefonemas desesperados, juro, me acostumei:
ㅤ– Pai, matei a Malena.
ㅤ– De novo? Agora eu não posso falar, filha, daqui a pouco te ligo.
[ Thalita Rebouças, em “Fala Sério, Filha!” ]